domingo, 15 de agosto de 2010

Locomotiva de 1891 sofre em São Carlos!

Neste 14 de agosto fui a São Carlos conferir o 14o Encontro de Ferreomodelismo promovido pela Frateschi.

Encontro bacana, havia muita gente, estava bem organizado e animado. Achei apenas estranho uma composição parada com as locomotivas ligadas e nem sinal de maquinistas ou alguém da ALL. Homens, mulheres e crianças subiam, entravam na cabine, tiravam fotos...Meio perigoso isso não?

Bom, não resisti e acabei comprando alguns isotérmicos recém relançados para comemorar os 40 anos do início da produção dos mesmos pela Frateschi.

É muito gratificante ver um pouco da memória ferroviária perpetuada por estes pequenos trens. Muito bom ver jovens e crianças se interessando por eles.

Num passado não muito distante, passava por aquela estação acomodado num confortável Pullman Standard contemplando o belo edifício...A euforia era tanta que nem imaginava que tudo seria sucateado.

Estas fantásticas miniaturas ajudam a trazer a memória visual disso tudo de volta e mostram pra essa meninada, a maioria ainda criança à época da hecatombe das ferrovias, como era fantástico e diverso o mundo das paralelas de aço.

Meus parabéns à Frateschi. Por estes encontros e por me ajudar a relembrar aqueles bons e não muito velhos tempos!

Mas o motivo principal que me faz escrever este post é o estado em que se encontra uma raríssima e antiquíssima locomotiva da Companhia Paulista, a de número 821, fabricada pela Baldwin em 1891 - isso mesmo, ela tem quase 120 anos!!!!!!!

Com certeza, é uma das BLW mais lindas que eu conheço. Ela tem muito estilo, com destaque para os domos característicos das máquinas do séc. XIX e pelo charmoso 4-4-0 com as motrizes mais distanciadas. Uma beleza!

Está colocada em uma praça pública, chamada Praça Brasil, entre a 7 de Detembro e a Marechal Deodoro, sob uma cobertura e cercada por um alambrado.

Pois bem, o alambrado foi rompido e a locomotiva começa a ser vandalizada, como demonstram as fotos abaixo.

Atravessei o alambrado sem dificuldade para tirar as fotos e pude notar que, apesar de estar bastante completa (sinos, placas, apito, números, etc) já começa a sofrer ação de vandalismo. Além de ter recebido pichações dentro e fora da cabine, a velha máquina foi transformada em sanitário, pois a sua cabine exala forte cheiro de urina e fezes.

Existe um suporte de cimento para uma placa comemorativa ou explicativa. Só o suporte mesmo, porque a placa já foi furtada. E quem arranca uma placa de dentro de um monumento pode roubar um sino, um apito, placas do fabricante de da companhia...

Puxa, que falta de respeito com este patrimônio tão importante...Uma locomotiva de 1891 transformada em sanitário público e à mercê de vândalos e gatunos!

Sem dúvida, mancha a imagem de uma cidade tão vanguardista como São Carlos, hoje condiderada um dos maiores polos de tecnologia brasileiros.

Abaixo, imagens da visita, clique para ampliar. (fotos Rodrigo Cabredo, 15/ago/2010 e Google Earth)

Localização da locomotiva na Praça Brasil (dir) e localização da estação de São carlos (esq).

Praça Brasil e local onde encontra-se a antiga loco.

Baldwin da Companhia Paulista de Estradas de Ferro c.1891.

Alambrado arrombado coloca em risco a velha máquina.

Placa explicativa ou comemorativa já foi furtada.

Uma falta de respeito com o patrimônio, não há o que comentar.

Esta locomotiva vai fazer 120 anos de existência!!!

Detalhe dos lindos domos característicos das locomotivas do século XIX. Pode-se ver à direita que uma das placas do fabricante já foi covardemente furtada.

Farol já semi-destruído junto ao gerador de energia.

Dá vontade de vê-la circulando na linha...

821 é o número dela.

A cabine com inscriçoes e muito, muito odor de urina e fezes. Um sanitário público de 1891! Que luxo!

Belíssima placa do fabricante - e única restante - entrega a idade da senhora: Nascida em 1891.

Sinos, apitos, macaco, placas...Estarão lá por mais quanto tempo?

Uma das BLW mais lindas que existem!

Charmoso distanciamento entre as rodas motrizes.

Antônio Carlos de Arruda Botelho (Barão, Visconde e Conde do Pinhal), fundador de São Carlos do Pinhal (atual São Carlos) faleceu em 1901, quando esta locomotiva já trabalhava há 10 anos por estas terras!!!

sábado, 7 de agosto de 2010

A primeira estação ferroviária do Brasil

A estação de Guia de Pacobaíba é repleta de magia. Com o nome de Mauá, foi a primeira estação de trem do Brasil, inaugurada em 30 de Abril de 1854. Por casa disso o dia do ferroviário é comemorado em 30 de Abril.

A estação está em um aterro que avança um pouco sobre o mar, no caso o fundo da baía da Guanabara, em uma localidade conhecida como Mauá, que acabou emprestando o nome à estação, hoje pertencente ao município de Magé.

Irineu Evangelista de Souza, que construiu a ferrovia, foi titulado como Barão de Mauá pelo Imperador Pedro II no dia da inauguração. Em 1874 recebeu o título de Visconde de Mauá.

Foi a partir de 1945 que a estação de Mauá passou a se chamar Guia de Pacobaíba.

Situação atual:

Quem passa desapercebido pela Avenida Roberto Silveira em Magé nem imagina que bem próximo dali estaria a primeira estação do Brasil e onde o primeiro trem circulou. Apenas os moradores sabem, e nem todos. Não existem placas, nem indicações. Encontrei o terreno porque vi um grande depósito de tubos e havia visto em fotos que a estação estaria ao lado de um depósito como estes.

A entrada é uma passagem estreita, de terra, por onde não entra carro. Bem perto da avenida existem as ruínas de um girador de locomotivas. Seguindo um pouco mais é possível ver um sinal de bandeira antigo, uma casa de telegrafista de 1916 da Leopoldina, um suporte de caixa d´água e a estação ao fundo.

A área onde seria o pátio foi invadida por construções. A empresa que guarda os tubos "englobou" a casa do telegrafista e sua cerca passa bem rente à estação. Uma parte dos trilhos foi arrancada e o restante está abandonado. Aliás, tudo ali está abandonado.

Pelo estado da estação, parece ter recebido várias restaurações e reformas. O curioso é que não existe entrada do lado da "rua" e, sim, apenas da plataforma. As portas e janelas são de madeira mais recente. Tudo está trancado com cadeados. Há um suporte de concreto para uma placa comemorativa, que foi  furtada. A alavanca do sinal de bandeira também foi furtada. A caixa d´água idem.

Gostaria de ter fotografado o cais de ferro, mas não foi possível pois no momento haviam algumas pessoas consumindo drogas no local. O cais está todo podre devido à falta de cuidado e à ação da maresia.

A região é muito bonita, porém muito estragada pela poluição da baía e pela ocupação desordenada do entorno da estação. O silêncio só é quebrado pelo barulho da água e pelo barulho dos aviões que chegam e saem do Galeão.

Apesar de toda degradação, o lugar é mágico. Não há como não parar e remeter-se por alguns momentos àquele longínquo 30 de Abril de 1854 e imaginar os discursos, a atmosfera, as pessoas e os sonhos do Brasil Imperial naquele pedaço de terra. Á partir daquele momento a ferrovia passaria a transformar o país.

Um local de importância histórica, cultural, científica, etc etc como este não deveria estar no estado em que se encontra. É um sítio valiosíssimo e deveria ser cercado e seriamente preservado. Uma pena que seja assim e que esteja sendo destruído pouco a pouco.

A seguir, fotos da visita. (fotos: Rodrigo Cabredo, Agosto/2010, imagens Google Earth)

Imagem de satélite atual mostra todo o conjunto, incluindo o cais de ferro.

Entrada estreita e discreta, sem placas ou cuidados dá acesso à 1a estação do Brasil.

Girador de locomotivas em ruínas junto à avenida.

Visão geral do conjunto arquitetônico.

Foto do local tirada provavelmente no final dos anos 70, início dos anos 80 extraída do livro " Lembrança do Trem de Ferro" de Pietro Maria Bardi.

Foto do local em ângulo semelhante mostra que mudou...pra pior. Compare com a foto anterior, os prédios históricos foram invadidos por cercas e construções.

A empresa de tubos "englobou" a casa da Leopoldina Railway de 1916.

Um detalhe da bela casa.

Antigo - e raro de se ver - sinal de bandeira.

Detalhe da bandeira do sinal.

Acionador do sinal de bandeira: A alavanca foi furtada.

Guia de Pacobaíba com a baía de Guanabara ao fundo.

Suporte de placa comemorativa onde a mesma foi furtada.

Detalhe das linhas, há um terceiro trilho.

Face sul da estação.

Estação com vista da plataforma.

Dístico da estação.

Um lugar bonito apesar da imensa degradação.

Ironicamente uma placa chama atenção para algo que não existe. Não há trilhos nem a faixa da linha.

A placa lembra uma outra que existe na Rodovia Bandeirantes que avisa: "Você está atravessando o Trópico de Capricórnio".

Museu Ferroviário Nacional - RJ

Pela segunda vez fui ao Museu Ferroviário Nacional, localizado onde eram as antigas e grandes oficinas da EFCB no bairro de Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.

Após a visita, pode-se falar que as maiores relíquias ferroviárias brasileiras - nisso inclusa a locomotiva "Baronesa", a primeira do Brasil - estão jogadas num canto ao descaso, com falta de conservação e mato, muito mato.

Como da outra vez, há um ano, não consegui entrar no museu, nem mesmo há alguma placa que indique algum horário ou coisa parecida e ele está fechado e com cara de poucos amigos. Populares desconhecem que há um museu ali e menos ainda que a primeira locomotiva do Brasil está ali depositada.O que chama atenção ali é um grande estádio.

Cerca de 90% da área das oficinas de Engenho de Dentro foram ocupadas pelo Estádio João Havelange, o "Engenhão", inaugurado para os Jogos Panamericanos do Rio. Restaram o galpão onde está o museu, algumas casas, o prédio das Officinas de Locomoção e seus anexos (todos em ruínas). Pela foto de satélite de 2004 é possível ver que o local era um grande depósito de trens, provavelmente sucata e muitos dos prédios que ali existiam já haviam sido demolidos.

O estádio tem a construção bastante simples e é bastante funcional, mas realmente "matou" o ambiente ferroviário no local. Imaginem introduzir um estádio no meio das oficinas da Lapa ou de Jundiaí? O resultado foi esse, muito estranho.

De qualquer forma, fica o registro de indignação de ter visto tanto descaso e falta de cuidado com este patrimônio histórico, que é o mais importante do Brasil.

A seguir as fotos da visita. (fotos: Rodrigo Cabredo, julho/2010 e imagens de satélite Google Earth).

Terreno das Oficinas de Engenho de Dentro em 2004.

Terreno das Oficinas de Engenho de Dentro em 2010.

Detalhe dos galpões onde está abrigado o Museu Ferroviário Nacional.

Detalhe de onde saia a linha que servia as oficinas.

Entrada do Museu Ferroviário. Bastante convidativa. A primeira locomotiva do Brasil está atrás deste portão.

Detalhe da placa de entrada do museu.

Prédio vizinho ao museu, em ruínas e cheio de mato.

Interior do prédio ao lado do museu, em ruínas.

Galpão do Museu Ferroviário, visto do muro.

É possível ver algumas peças à distância, como o carro do Imperador ao fundo...

...ou a Baronesa, a locomotiva número 1 do Brasil.

Pequenina locomotiva da Central depositada junto ao muro, sem cuidados e com muita poeira.

Situação do lado de fora do galpão do Museu Ferroviário.

Muro decorado com cores do Botafogo.

Vista do belíssimo prédio central das Oficinas de Locomoção, em ruínas.

Detalhe do belo prédio.

Cabine de sinalização de Engenho de Dentro, construída em art déco.